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A discussão sobre transição energética é uma pauta que vem recebendo ampla atenção do setor produtivo, da mídia e da sociedade como um todo. As mudanças em prol da busca por matrizes energéticas renováveis e rotinas industriais mais verdes já é uma realidade no Brasil. A partir desse cenário, a ABRACE apresenta aos associados a segunda entrevista do especial Transição Energética — uma série de entrevistas que visa mostrar como a indústria brasileira está se adaptando a este contexto. Confira a seguir um pouco do que pensa Cláudia Schaeffer, Diretora Global de Negócios para Energia e Mudanças Climáticas da Dow, sobre o tema:

O que a Dow, dentro do seu negócio, entende por transição energética?

Transição energética é um tema fundamental para endereçar o desafio da mudança climática. A Dow é uma empresa com foco em ciências dos materiais atuando nos segmentos de embalagens, infraestrutura, produtos de consumo e mobilidade. Químicos estão presentes em mais de 95% de todos os bens manufaturados e a nossa indústria é parte da solução quando se fala em sustentabilidade. Alguns exemplos são fluidos e filmes que fazem a geração solar mais eficiente e os selantes e isolamento térmico que contribuem com a eficiência energética de edifícios. Contribuímos para a descarbonização das nossas cadeias de valor. E somos também grandes consumidores de energia, como todas as companhias que fazem materiais que necessitamos todos os dias. Somos, portanto, um vetor importante do desenvolvimento, escalabilidade e adoção de tecnologias de processos que são necessárias para a descarbonização do planeta.

Quais ações já foram iniciadas?

Estamos no terceiro ciclo de objetivos decenais de sustentabilidade. Em 2020, assumimos compromissos adicionais com nossas metas mais desafiadoras como: reduzir nossas emissões em 5 milhões de toneladas até 2030, nos tornarmos carbono neutro até 2050, aumentar a economia circular e reduzir resíduos plásticos. Já estamos implementando algumas ações de curto prazo, associadas ao aumento de renováveis em nossas operações e continuidade da otimização energética dos nossos processos. Nos últimos dois anos, fechamos grandes contratos de compra de energia renovável, tendo sido dois deles no Brasil, permitindo a expansão de capacidade através da construção de novos parques de energia solar e eólica. Em 2021, implementamos uma nova tecnologia de craqueamento catalítico de propileno desenvolvida pela Dow em na nossa fábrica de Freeport nos Estados Unidos que reduzirá emissões em mais de 20%.

Qual o planejamento para o futuro (curto, médio e longo prazo) em relação às ações que promovem e visam contribuir com a transição energética?

Em adição às ações de curto prazo já mencionadas, estamos desenvolvendo tecnologias de transição como hidrogênio circular e sequestro e captura de CO2 que serão implementados antes de 2030. Em outubro, anunciamos nossa primeira fábrica carbono zero no Canadá, um projeto que descarbonizará 20% da nossa capacidade global de etileno enquanto crescemos a nossa produção de polietileno em 15%. No longo prazo, estamos desenvolvendo novas tecnologias de baixo carbono envolvendo eletrificação de processos e reciclagem avançada, entre outros. Um exemplo é a parceria com a Shell para o desenvolvimento de craqueamento elétrico, usado na produção de insumos petroquímicos.

Com relação ao ambiente internacional, a Dow entende que o Brasil está em um bom patamar de investimentos em transição energética? Ou ainda tem muito a avançar?

O Brasil possui um potencial grande na atração de investimentos para uma economia de baixo carbono. Temos abundância de recursos naturais e uma das matrizes de energia mais limpas do mundo e precisamos avançar na área de políticas públicas e regulatórias para acelerar a atração de investimentos. A Europa, por exemplo, está implementando o EU Green Deal, um programa governamental para fomentar investimento em infraestrutura verde e desenvolvimento e escalabilidade de tecnologias da ordem de trilhões de dólares.

Acredita que o Brasil utiliza todo o potencial que tem para promover a transição energética?

Como país, temos muitas oportunidades de projetos com benefícios para as comunidades, economia e redução na pegada de carbono. Energia renovável é um bom exemplo. Além de trazer melhoria na competitividade de custo e redução de emissões, traz aumento de renda e oferta de emprego especializado para comunidades em locais remotos. Energia renovável competitiva é a base para a expansão de novos negócios, como o hidrogênio verde, com grande potencial de crescimento no Brasil para atendimento do consumo interno e para exportação. De forma a viabilizar este potencial é importante promover a modernização do setor elétrico, com maior transparência e previsibilidade do custo da energia. Em novembro, os consumidores tiveram um custo superior a R$ 100/MWh em encargos setoriais para cobrir o custo adicional das termelétricas, o que quase dobra o custo da energia e tira toda a vantagem competitiva da energia. Em 2022, o valor de todos os encargos somados pode ultrapassar R$ 130/MWh. O ambiente desestimula investimentos e passa a mensagem de que somos o país da energia barata de custo alto.

A Câmara dos Deputados está discutindo um projeto de lei que vai regulamentar o Mercado de Carbono no Brasil. A proposta apresentada prevê algumas regras para o mercado voluntário e o mercado regulado só virá em dois anos. Acha importante regular esse mercado no Brasil?

A discussão sobre mercados de carbono já está posta em todo o mundo. Foi uma das grandes frentes da COP26 em Glasgow e existem inúmeros detalhes a serem negociados e desenvolvidos a partir daí. Quanto antes o Brasil se inserir nesta discussão, melhor poderá construir políticas públicas em colaboração com o setor produtivo que estimulem o crescimento e valorize a posição diferenciada do país. Investimentos para viabilizar um futuro carbono neutro estão associados a um custo para os produtores, assim como para os consumidores. Nós somos favoráveis ao estabelecimento de um mercado de carbono regulado abrangendo todos os setores da economia e acreditamos que o sistema de comércio de emissões seja o mais efetivo, promovendo redução de emissões a menor custo.


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