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Transição energética é uma das temáticas que vem recebendo destaque no setor produtivo, não somente no que concerne à implementação de matrizes energéticas renováveis, mas também aplicada no dia a dia da indústria. A busca por uma economia de baixo carbono reflete em investimentos para uma maior eficiência energética nos processos e produtos. É diante deste cenário que a ABRACE apresenta aos associados o especial Transição Energética, uma série de entrevistas que visam mostrar como a indústria brasileira está se adaptando a este contexto. Confira a seguir um pouco do que pensa Paulo Squariz, Gerente Executivo de Energia da Suzano, sobre o tema:

O que a Suzano, dentro do seu negócio, entende por transição energética?

A Suzano tem o compromisso de contribuir para uma economia de baixo carbono e já é uma empresa considerada carbono negativo. Isso significa que a nossa atividade vai além de somente neutralizar o carbono emitido, porque já eliminamos mais CO2 do que emitimos. Somente em 2020 removemos 15 milhões de toneladas de CO2 a partir das nossas florestas plantadas, já líquidos de nossa emissão nos processos industriais e de distribuição. Agora, a meta da Suzano de remoção de CO2 da atmosfera até 2025 é de 40 milhões de toneladas de CO2. Temos em nossa visão alguns pontos básicos para uma maior efetividade dessa transição energética, como descarbonizar ainda mais nossas fontes de energia, aumentar a eficiência energética operacional das nossas plantas e implementar tecnologias digitais que permitam minimizar nosso consumo e maximizar nossa geração, além de discutir, em conjunto com os outros agentes da sociedade, políticas públicas e regulatórias que sejam mais aderentes à questão da transição energética, atendendo às expectativas desse novo consumidor e de outros stakeholders que estão no entorno do nosso negócio.

Quais ações já foram iniciadas?

Temos muitas iniciativas relacionadas ao tema. A primeira é relativa à nossa matriz energética, já que 87% do consumo energético dentro da Suzano é proveniente de fontes renováveis a partir de florestas plantadas. Outra iniciativa é a implementação de projetos de eficiência energética na área industrial, como substituição de gás natural por biomassa em caldeiras e gaseificação da biomassa. Além disso, dentro da nossa logística florestal, temos processos de otimização de rotas da frota com inteligência artificial, ampliação da utilização de “hexatrens” que são composições de 6 módulos que busca otimizar o consumo de combustíveis fósseis em nossos caminhões, além de uso de caminhões elétricos em alguns processos de distribuição da Suzano.

Qual o planejamento para o futuro (curto, médio e longo prazo) em relação às ações que promovem e visam contribuir com a transição energética?

As ações de curto prazo são ações que já estão em andamento, como o mencionado anteriormente. Para o médio prazo, estamos investindo, em uma nova planta no Mato Grosso do Sul, com start up em 2024 e que será uma planta extremamente eficiente que contará com geração adicional de energia renovável de até 180 MW médios para o grid. Em relação às ações de longo prazo, a Suzano dentro da visão de novas rotas tecnológicas, objetivamos a substituição da fibra de algodão pela fibra de celulose para aplicações na indústria têxtil (“fiber to fiber”), e a produção de bio-óleo para ser misturado no diesel (o que chamamos de “fossil to fiber”).

A Suzano acredita que o setor produtivo brasileiro já prioriza esse viés da sustentabilidade?

A nossa visão é que o ESG (Environmental, Social and Corporate Governance) deixou as academias e passou a ser assunto prioritário nos mais diversos setores da indústria nacional e do mundo. Muito mais do que uma tendência de viés econômico de curto prazo, estamos falando de como vamos deixar o planeta para os nossos sucessores, e essa é grande preocupação do setor produtivo nacional e mundial, dos governos e da sociedade em geral. É preciso repensar o que se consome, o que se produz e como se elaboram as políticas públicas para que estejam aderentes a esse futuro mais sustentável. Isso ficou provado dentro da discussão que se teve na COP26 em Glasgow pelos vários segmentos da sociedade global.

Com relação ao ambiente internacional, a Suzano entende que o Brasil está em um bom patamar de investimentos em transição energética? Ou ainda tem muito a avançar?

Olhando estritamente para a questão de transição energética, eu acho que o Brasil está muito à frente de algumas nações desenvolvidas. Isso porque mais de 80% da matriz brasileira é composta por geração a partir de fontes renováveis, sem mencionarmos quantidade de novos investimentos em projetos de geração renovável que estão por vir no Brasil, tornando nossa matriz cada vez mais sustentável. Porém ainda se tem muito o que se fazer. É necessário que os agentes do mercado de energia, em conjunto com as autoridades competentes do setor construam, em conjunto, um novo desenho de regulação setorial, permitindo o florescimento de modelos de negócio mais modernos que conciliem racionalidade de custos para os consumidores e incentivos efetivos para investidores no setor, além de focarmos em formação de mão de obra especializada para que possamos crescer de forma sustentável.

Acredita que o Brasil utiliza todo o potencial que tem para promover a transição energética?

Em minha visão, a transição energética está fundamentada em três pontos principais. O primeiro deles é o que chamamos de empoderamento do consumidor, que quer produtos mais sustentáveis. Outro ponto é a disrupção nos processos energéticos com a tecnologia digital, que conecta dados e esses consumidores. Um exemplo simplista é quem tem um telhado solar em sua residência sabe o que significa ver a sua produção de energia real-time por um app. Por fim, com o custo decrescente das renováveis no Brasil e no mundo, viabiliza-se a eletrificação de processos industriais, substituindo processos que até então eram movidos a combustíveis fósseis. Tais pilares devem ser levados em conta para a construção deste “Novo Mundo” da transição energética em nosso país.

Voltando ao setor produtivo brasileiro. O investimento realizado pelas indústrias é revertido em diferencial competitivo? Ou é uma tendência que está sendo seguida por todas (ou maioria) e vai gerar um impacto neutro nos negócios?

Sem dúvidas.  Acredito que o impacto desses investimentos sustentáveis vai trazer retornos imediatos ao setor produtivo brasileiro. Os setores comercial, industrial e até o financeiro estão fazendo uma reflexão bastante madura de como podem ser ainda mais sustentáveis no médio e no longo prazo e como transformar essa reflexão em ação prática em processos e produtos de alcance nacional e mundial.

A Câmara dos Deputados está discutindo um projeto de lei que vai regulamentar o Mercado de Carbono no Brasil. A proposta apresentada prevê algumas regras para o mercado voluntário e o mercado regulado só virá em dois anos. Acha importante regular esse mercado no Brasil?

A Suzano é favorável ao mercado regulado de carbono. Na nossa visão esta é a melhor maneira de colocar um valor nas emissões e incentivar os setores de atividades emissoras a investir em tecnologia e reduzir as emissões. Quando se coloca um preço no carbono, a decisão fica entre pagar pelo direito de emitir, na forma de permissões e taxas, ou usar esse capital para implementar tecnologia e reduzir emissões efetivamente. É um mecanismo de mercado e com esse mecanismo podemos também demonstrar internacionalmente metas e resultados de redução de emissões.


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