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ENERGIA PARA SAIR DA CRISE

O que pensa a indústria

A ABRACE conversou com Alfredo Lamego, Gerente global de energia e suprimentos na Anglo American. O especialista administra os contratos de energia das plantas da Anglo no Brasil, Chile, no Peru, na África do Sul e na Austrália. A gestão é feita à distância com o apoio das equipes locais. Veja trechos da conversa, os desafios que se impõem com o atual cenário e as lições que as equipes no mundo todo têm aprendido com a pandemia.

Como tem sido as operações que você gerencia nesse período?

Nossas operações continuam a 100%, principalmente na América Latina e Austrália, onde o “Lockdown” já terminou há 15 dias. No Peru, há uma mina de cobre em construção, que foi interrompida em parte, mas sem prejudicar muito o cronograma. Chile e Brasil estão operando, apesar de algumas restrições.

Pode nos falar um pouco sobre a estrutura de regulação nos diferentes países onde atua?

Sim, são em torno 985 MW médios de energia nos quatro países. Desses, 340 estão localizados no Brasil. A estrutura de geração, transmissão e comercialização para os consumidores livres é quase a mesma nesses países: uma estrutura altamente regulamentada, com regras claras, que são importantes para todos os agentes.

E qual a diferença entre a realidade no Brasil e em outros países?

Aqui, são 3 plantas industriais, que consomem cerca de 3 milhões de MWh/ano. No Brasil, o peso de encargos é muito desproporcional ao custo de energia. Em geral, temos 4 itens de custo associado à energia: impostos, encargos, conexão e a energia em si. Os impostos respondem por um peso de 55% a 60% do valor da conta.

Na Austrália, por exemplo, os encargos e impostos não chegam a 12% e lá temos mais 20% de certificados ambientais – pois precisamos incentivar a geração de energia limpa, já que utilizamos principalmente carvão e gás.  O Chile é semelhante. O Brasil tem mais de 80% de capacidade instalada de renováveis e poderia aproveitar esse exemplo.

Outra coisa que está muito avançada lá fora é o fechamento financeiro, que acontece de meia em meia hora, e o despacho a cada 5 minutos, na Austrália. Aqui ainda estamos no esquema despacho semanal e tentando avançar com o PLD horário.

O que mudou com o isolamento social?

Antecipamos rapidamente o Home Office para as atividades que podem ser flexibilizadas – estamos com 100% de home office no Brasil, Chile e na África do Sul. Aprendemos a levar em consideração um novo fator de saúde mental e qualidade de vida, pelo qual a empresa já prezava, mas acabou dando uma importância maior a isso.

Ainda estamos aprendendo a conviver com esse trabalho virtual. Por um lado, isso tem trazido redução de custos, do número de viagens e seus riscos associados. Aprendemos a resolver certos problemas sem estar presente. A nossa área de “supply chain”ganhou mais visibilidade. Nos solidificamos como a área que apresenta soluções para transporte, logística, importação. Temos a oportunidade de mostrar à empresa o valor de uma área que geralmente é considerada apenas apoio e suporte.

O que os grandes consumidores vão poder aprender com essas mudanças?

Olha, com uma trajetória diversificada, em 30 anos no setor elétrico, eu já conheço muita gente. Mas percebo como, agora, é importante ter contato com as transmissoras e distribuidoras. Por ser um setor regulado, a gente delega muito esse contato ao regulador e mantemos contato constante com geradores e comercializadoras. Isso deve ser revisto, devemos nos aproximar de quem leva a energia até a planta.

E qual o papel de associações como a ABRACE nesse processo?

A ABRACE tem um papel importantíssimo, por promover esse link entre os associados e todos os outros segmentos do setor: distribuidores, geradores. Acompanho bastante de perto o trabalho e sinto muito orgulho em fazer parte. Uma das primeiras coisas que fiz quando cheguei à Anglo foi me associar à ABRACE, há 10 anos.


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